Yeah Yeah Yeah!

February 12, 2012

Incompletos, eternos

Filed under: Uncategorized — Dorothy Lee @ 11:51 pm

A sensação era de formigamento e se espalhava dos lábios às extremidades, desabotoando e corrompendo vestígios de pudor. As cores se tornavam cada vez mais vívidas conforme tocávamos a carnadura dos pensamentos insones, desassossegados, repletos de você e eu. Nossas falas se entrecortavam, reciclando ansiedade e contrariando a vontade crescente que tínhamos de ficar em silêncio, seu beijo selando minhas palavras.

Teimamos em adiar o inadiável pelo simples prazer do porvir, e acabamos nos perpetuando em almas insaciadas, eternas entusiastas de nós dois. Suas minúcias habitam minha imaginação em reconstruções do que nossa incompletude deixou em haver. Nossos corpos ainda saboreiam a lentidão dos nossos passos, dançando anestesiados, descompassados, e inundando o tempo e o espaço do que deixamos de colher.

December 8, 2011

Inevitável

Filed under: Uncategorized — Dorothy Lee @ 1:16 pm

Mergulhamos juntos num céu turbulento e sentimos nossos corações baterem tão forte que nossos corpos tremiam. Não deixamos escapar qualquer gesto ou palavra do outro em busca da tranquilidade e, por isso, não éramos surpresa alguma. Nos acostumamos com a turbulência, o conforto dos nossos abraços e esquecemos que não éramos apenas nós. Estávamos fadados ao fracasso porque não nos permitimos, porque nos cegamos com o que nos pareceu cômodo. Cansados, seguimos em frente. Nos despedimos e vimos o nosso adeus aflito se transformar em mero aceno ornamentado por sorrisos apáticos.

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Esqueci meus pensamentos em você. Seu sorriso a roubar o meu olhar, seu cheiro de lavanda a batizar minhas roupas, sua canção a invadir minha memória. Sorrateiras, suas palavras se escondem em sussurros e vagam pela casa arrepiando minha imaginação, desafiando os sentidos e atormentando o tempo. Procuro seus vestígios no chão gelado do quarto, no pôr do sol e nos bilhetes esquecidos nas gavetas, porque gosto de te encontrar. Gosto de te ter por perto. Inevitavelmente, gosto…

May 29, 2011

Tênue

Filed under: Uncategorized — Dorothy Lee @ 7:01 pm

Lembro do vapor umedecendo o azulejo do banheiro enquanto o barulho do chuveiro ecoava distante. Lembro dos nossos rastros no chão molhado, na cama desarrumada, nas roupas largadas pelo quarto. Lembro do cheiro de vela queimada, das vontades temendo as horas apressadas do relógio digital, do vento soprando a cortina e deixando transparecer o que não posso me lembrar. Éramos verdadeiros, você e eu?

Nunca conseguimos acreditar na existência do outro porque nos transformamos em uma pilha de lembranças desgastadas e vidas compartilhadas em desejos reprimidos. Tivemos medo. Não quisemos nos ver desmanchar nos olhos do outro quando o tédio fosse tudo o que restasse entre nós. Fomos tão medrosos que nos entregamos como corpos sem alma por trás de sorrisos desdentados. Não me lembro de nós, nem de você ou de mim. Omitimos quem éramos para fazer real a utopia, uma doce ilusão.

Colhemos nossas flores sem pólen e as deixamos murchar. Revolucionamos sem lutas e fingimos contento. Reviramos os anos em busca do outro e encontramos páginas vazias e redundantes que outrora pareciam tão vívidas. Não resistimos ao esquecimento, simplesmente o abraçamos e abandonamos o que tínhamos em bancos sujos de praça.

Compartilhamos a efemeridade e nos fizemos passageiros de destinos cruzados que se despedem sem adeus. Recordamos ainda incrédulos sem lembrar quem éramos nós, porque fomos feitos de lembranças e laços de nós frouxos.

May 18, 2011

O curioso sujeito do conto inacabado

Filed under: Uncategorized — Dorothy Lee @ 11:16 pm

Após um dia conturbado na corretora, decidi que levaria uma vida um pouco mais sossegada, ao menos nas horas vagas. Chegaria em casa, tiraria meus sapatos, deitaria no gramado e apreciaria a calmaria que se abstém durante o trabalho, regaria as plantas, talvez até faria algumas aulas de Yoga. Enumerei mentalmente uma dezena de coisas pra fazer enquanto esperava preso no engarrafamento. Uma delas certamente seria jogar fora esse CD do Luan Santana que comprei junto com uma coletânea de lançamentos da Som Livre por R$34,90.

Finalmente estaciono o carro na garagem e começo a colocar meus planos em prática. Tirar o sapato e sentir o tapete macio afundar sob os meus pés. Ah! Acho que nunca dei a devida atenção a essas pequenas coisas da vida. Levei um susto quando, concentrado naquela sensação prazerosa, senti alguma outra coisa roçar nessas regiões baixas e ouvi alguma voz me chamar de dentro do meu quarto. Entrei em pânico e, ao tentar pegar uma faca na cozinha, derrubei uma xícara de café que estava sobre o balcão e sujei meu tapete novo. Andei na ponta dos pés carregando o gato, caso precisasse fazer alguém de refém pra expulsar o ladrão da minha casa.

Com o corpo colado à parede feito goma de mascar e a cabeça temendo pela sua integridade física, espiei pelo canto da porta. Estava tudo normal com exceção da mulher de lingerie deitada na minha cama me chamando de amor e perguntando o que eu estava fazendo com aquela faca e com o Fred. Apontei a faca para a intrusa e mandei-a sair. Afinal, quem diabos era aquela que gritava e chorava desesperada, enquanto eu pedia para que se retirasse? Falou algo sobre ter acreditado que realmente havíamos deixado o passado para trás, mas eu fingi não escutar. Limitei-me a dizer que nunca gostei de gatos.

De repente, senti uma pontada no meu coração que foi se estendendo para o restante do corpo que parecia se esticar feito um elástico rompedor de ligamentos. A maldita devia ter me apunhalado pelas costas com o atiçador da lareira. A minha vista embaçada começou a me preocupar e a tontura fez com que tudo girasse. E tudo girou por tempo o suficiente pra que eu começasse a alucinar e acreditar naquele cenário novo que se instaurou ao meu redor.

De joelhos sobre o carpete cor de caramelo de um lugar em que nunca estive, apoiei-me no braço do sofá verde com uma mão, enquanto a outra parecia segurar o meu coração no peito pra conter a dor que me atravessava. E como doía! Ouvi umas vozes gritando e uma correria pela casa desconhecida que fazia tremer o chão. Novamente, minha visão embaçou, meu corpo pareceu pesar toneladas a ponto de me fazer ir de cara no carpete e estranhos se dirigiram a mim como se me conhecessem. Uma mulher gritava com uma adolescente pedindo pra que ligasse pra ambulância. Ambas me cercaram aos prantos e se despediram de mim como se eu fosse um ente querido. A jovem me chamou de pai.

Senti uma certa leveza quando, mais uma vez, percebi a mudança de cenário. Era uma casa de madeira meio sombria, mas tranquilamente banhada pelo silêncio e pelo luar. Sentei no sofá amarelo sujo e mofado e comecei a sentir que havia encontrado o meu lugar. Não me incomodava com os ratos guinchando e o barulho das perninhas imundas de insetos asquerosos perambulando pela casa. A verdade é que estava tudo tão sereno que eu não poderia imaginar qualquer outro ser humano habitando aquela casa, ou melhor, não imaginaria ser humano qualquer ali. Nem eu, corrompendo-a com meus pensamentos.

Mas como se coisas estranhas o suficiente já não tivessem acontecido comigo naquele dia, vi um clarão imenso invadir a sala de estar. De repente, pessoas com sorrisos assustados começaram a aparecer ao meu redor e meu corpo leve foi se deteriorando, grão após grão a ser levado pelo vento. Ao longo do caminho, fiquei pensando em como um flash poderia me expulsar de algum lugar daquele jeito, mas logo lembrei que nem ao menos tive tempo de anotar o endereço desse tal lugar e fiquei tremendamente frustrado.

As próximas paradas foram várias e eu já não sabia mais quem era ou devia ser. A única coisa que eu realmente sabia era que nasci dos picos, brincando com tinta de caneta e farelos de grafite. Deslizava daqui pra lá me formando a partir de rabiscos na folha de papel sem saber o que estava por vir. Pulava de página em página e de página em capítulos nesse livro de contos folheados. Terminava histórias sem saber e me transformava em outro sendo um só. Apenas um buscando viver o cotidiano e o fantástico da vida real em capítulos fechados e capas duras que encerram histórias, pulando de uma a outra pra que a minha não precisasse terminar nesse curto espaço que me foi destinado.

Certo dia, em uma página manchada de café e mofo, encontrei esse conto com o qual me identifiquei bastante: Alguém à procura de alguma coisa. Talvez eu fique por aqui até me cansar dessa inconstância.

May 3, 2011

O pouco do todo

Filed under: Uncategorized — Dorothy Lee @ 3:14 pm

Branco, branco, branco, rosa.

Foi a gota de sangue que lhe pendia no rosto dos olhos machucados de tanto enxergar. Sutil, permitiu-se deslizar sobre a maçã do rosto e demorar-se no queixo. Acumulou-se até não aguentar mais e deixou a gravidade tomá-la em queda livre, gota vermelha, fazendo com que caísse lentamente até chocar-se contra a superfície do leite e ali se misturar.

Foi a cura de uma cegueira. O piscar dos olhos de uma vista cansada, exaurida em sua frustração, a ser pego de surpresa. Bastou um pequeno movimento para que o seu olhar fosse fisgado pelo êxtase do que acabara de se desenhar diante de si. Não mais conseguia se desprender daquilo. Observava atentamente, curioso.

Foi uma explosão silenciosa. Um momento imprevisível, o impacto e, então, a serenidade aterrorizante que amedrontava com a calmaria dramática sem voz. Era o medo da mudança que intalava a garganta e os fazia mudos, o suor gelado, a respiração aceleradamente esquecida, o coração na boca e os olhos a assistir surdamente, em câmera lenta, o inesperado se apossar do habitual.

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Prendi a respiração e contei até quinze.

O desconforto não me abandonava e a falta de ar se tornava constante. Era como se eu estivesse enclausurada em um mundo que vive a quantidades mínimas de oxigênio, fazendo com que o suspiro aliviante de um inalar profundo se tornasse objeto de desejo. Cheguei a pensar que era algo no ar que me sufocava, mas nem a troca constante de ambientes conseguia me livrar daquela sensação asfixiante.

Procurei pela minha sombra e a encontrei atrás de você, no único lugar em que a minha alma inquieta poderia se tranquilizar. Descobri, então, o que me prendia a respiração. Eram os seus braços em volta de mim. Era você me abraçando. E você abraçava a minha alma tão forte que eu não conseguia pensar. Sentia-me transbordar a todo instante. Transbordava o amor, o ciúme, a incerteza, eu. E sufocava-me com você. Preenchia-me de você até eu não conseguir mais ser sem ser você, sem você.

Sufocava de saudade e de ódio. Sufocava pelo que eu nem sabia como sentir, porque você perturbou minha cegueira e deu-me outra, a sua. Agora, você é todos e todos não são você. Sufocava nos meus pensamentos presa à forca das nossas (in)consequências. A ansiedade torturava o meu coração ao apertá-lo cruelmente sem deixá-lo parar, perpetuando aquela sensação angustiante. Você em mim. Inevitável.

Deixei cair o copo de leite. Entreguei-me à cegueira. Tremi calada na minha insegurança. Habituei-me ao ambiente. Esperei…!

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