Após um dia conturbado na corretora, decidi que levaria uma vida um pouco mais sossegada, ao menos nas horas vagas. Chegaria em casa, tiraria meus sapatos, deitaria no gramado e apreciaria a calmaria que se abstém durante o trabalho, regaria as plantas, talvez até faria algumas aulas de Yoga. Enumerei mentalmente uma dezena de coisas pra fazer enquanto esperava preso no engarrafamento. Uma delas certamente seria jogar fora esse CD do Luan Santana que comprei junto com uma coletânea de lançamentos da Som Livre por R$34,90.
Finalmente estaciono o carro na garagem e começo a colocar meus planos em prática. Tirar o sapato e sentir o tapete macio afundar sob os meus pés. Ah! Acho que nunca dei a devida atenção a essas pequenas coisas da vida. Levei um susto quando, concentrado naquela sensação prazerosa, senti alguma outra coisa roçar nessas regiões baixas e ouvi alguma voz me chamar de dentro do meu quarto. Entrei em pânico e, ao tentar pegar uma faca na cozinha, derrubei uma xícara de café que estava sobre o balcão e sujei meu tapete novo. Andei na ponta dos pés carregando o gato, caso precisasse fazer alguém de refém pra expulsar o ladrão da minha casa.
Com o corpo colado à parede feito goma de mascar e a cabeça temendo pela sua integridade física, espiei pelo canto da porta. Estava tudo normal com exceção da mulher de lingerie deitada na minha cama me chamando de amor e perguntando o que eu estava fazendo com aquela faca e com o Fred. Apontei a faca para a intrusa e mandei-a sair. Afinal, quem diabos era aquela que gritava e chorava desesperada, enquanto eu pedia para que se retirasse? Falou algo sobre ter acreditado que realmente havíamos deixado o passado para trás, mas eu fingi não escutar. Limitei-me a dizer que nunca gostei de gatos.
De repente, senti uma pontada no meu coração que foi se estendendo para o restante do corpo que parecia se esticar feito um elástico rompedor de ligamentos. A maldita devia ter me apunhalado pelas costas com o atiçador da lareira. A minha vista embaçada começou a me preocupar e a tontura fez com que tudo girasse. E tudo girou por tempo o suficiente pra que eu começasse a alucinar e acreditar naquele cenário novo que se instaurou ao meu redor.
De joelhos sobre o carpete cor de caramelo de um lugar em que nunca estive, apoiei-me no braço do sofá verde com uma mão, enquanto a outra parecia segurar o meu coração no peito pra conter a dor que me atravessava. E como doía! Ouvi umas vozes gritando e uma correria pela casa desconhecida que fazia tremer o chão. Novamente, minha visão embaçou, meu corpo pareceu pesar toneladas a ponto de me fazer ir de cara no carpete e estranhos se dirigiram a mim como se me conhecessem. Uma mulher gritava com uma adolescente pedindo pra que ligasse pra ambulância. Ambas me cercaram aos prantos e se despediram de mim como se eu fosse um ente querido. A jovem me chamou de pai.
Senti uma certa leveza quando, mais uma vez, percebi a mudança de cenário. Era uma casa de madeira meio sombria, mas tranquilamente banhada pelo silêncio e pelo luar. Sentei no sofá amarelo sujo e mofado e comecei a sentir que havia encontrado o meu lugar. Não me incomodava com os ratos guinchando e o barulho das perninhas imundas de insetos asquerosos perambulando pela casa. A verdade é que estava tudo tão sereno que eu não poderia imaginar qualquer outro ser humano habitando aquela casa, ou melhor, não imaginaria ser humano qualquer ali. Nem eu, corrompendo-a com meus pensamentos.
Mas como se coisas estranhas o suficiente já não tivessem acontecido comigo naquele dia, vi um clarão imenso invadir a sala de estar. De repente, pessoas com sorrisos assustados começaram a aparecer ao meu redor e meu corpo leve foi se deteriorando, grão após grão a ser levado pelo vento. Ao longo do caminho, fiquei pensando em como um flash poderia me expulsar de algum lugar daquele jeito, mas logo lembrei que nem ao menos tive tempo de anotar o endereço desse tal lugar e fiquei tremendamente frustrado.
As próximas paradas foram várias e eu já não sabia mais quem era ou devia ser. A única coisa que eu realmente sabia era que nasci dos picos, brincando com tinta de caneta e farelos de grafite. Deslizava daqui pra lá me formando a partir de rabiscos na folha de papel sem saber o que estava por vir. Pulava de página em página e de página em capítulos nesse livro de contos folheados. Terminava histórias sem saber e me transformava em outro sendo um só. Apenas um buscando viver o cotidiano e o fantástico da vida real em capítulos fechados e capas duras que encerram histórias, pulando de uma a outra pra que a minha não precisasse terminar nesse curto espaço que me foi destinado.
Certo dia, em uma página manchada de café e mofo, encontrei esse conto com o qual me identifiquei bastante: Alguém à procura de alguma coisa. Talvez eu fique por aqui até me cansar dessa inconstância.