Yeah Yeah Yeah!

April 1, 2011

Isso não é coisa minha

Filed under: Uncategorized — Dorothy Lee @ 2:43 pm

Vou te contar, hein? Às vezes eu penso que é coisa de poeta, músico, publicitário.

Sabe? Essa coisa de ir ao mercado e encontrar o grande amor da sua vida quando os dois estiverem procurando o mesmo tempero ou escolhendo a mesma massa pro bolo. É claro que o produto será sempre o último da gôndola e um dos dois hesitará e deixará o outro pegar, criando aquela cena do “Pode pegar”. Troca de olhares, palavras, risadas, conformismo, adeus. E é o suficiente pra que confetes explodam dentro de ambos os corações e os próximos encontros não programados comecem a acontecer. Na rua, na farmácia, na universidade, vida afora e no pensamento.

Ou talvez você esteja no show do Daft Punk e se depare com uma pessoa linda em todos os sentidos que conseguir sentir no meio daquela multidão. Ela estará dançando “Around the world”, trilha sonora de suas infâncias, alopradamente, assim como você. Um perceberá o olhar do outro e os dois se sentirão acanhados, trocando a faixa por um balançar de corpo bem tímido e intercalado por olhadelas. É possível que o álcool auxilie o desenrolar dessa história, mas isso não tem a mínima importância. Afinal, a percepção inicial do outro já foi o suficiente.

E isso tudo basta. E a pessoa que correspondeu o seu olhar será sempre bonita, cheirosa e inteligente. E um milhão de coisas coincidirão em suas vidas ou, simplesmente, um se tornará fã do outro por ser como é. Ele completará os seus sorrisos, ela as suas piadas, ele os seus abraços, ela os seus bilhetes, ele as suas vontades… Bom, eles se completarão. Mas e aí?

E aí você fica parado na frente do computador comendo pipoca, tomando sorvete ou Coca e pensando em como seria bom se isso acontecesse contigo, ao mesmo tempo em que joga a realidade na sua cara e a esfrega com força. Isso é coisa de propaganda, roteiro de filme, letra de música. Não acontece. Não comigo. Até que acontece.

E aquele carinha do quiosque que você nunca percebeu vira o seu melhor amigo, sua melhor amiga vira o seu grande amor. E a reviravolta na sua vida começa. E o melhor é que nada é perfeito. E a coisa mais legal de todas é que, se isso for uma novela, os figurantes serão os outros.

E essa será mais uma história pro mundo se espelhar. Pro mundo saber que acontece. Pro mundo saber de nós.

March 28, 2011

Meu breve perambular pela eternidade

Filed under: Uncategorized — Dorothy Lee @ 11:09 pm

Caminhei em passos discretos pra não te acordar, apesar do susto que levei quando você inspirou profundamente e eu tive que me segurar nos fios do seu bigode pra não ser levada narinas adentro. Felizmente, alarme falso. Continuei até chegar nas suas pálpebras inquietas, onde plantei as flores mais belas que já vi e colhi só pra que você pudesse vê-las ao acordar. Escorreguei pelo canto do seu rosto e sussurrei o amor no seu ouvido com palavras doces e perfumadas como o morango. Subi pelo seu pescoço com um pouco de dificuldade, admito, e me permiti descansar ali. Entre seu corpo e seu rosto. Logo sobre a sua carótida que me aninhava como uma canção de ninar pulsante. Levantei com a ansiedade martelando meu pensamento. Segui em frente e andei por entre os pelos do seu peito. Virei à esquerda. Peguei meu bisturi e abri caminho até o seu coração. Me deixei apaixonar por tudo o que você guardava lá. Amei também. Dentro de você. O mesmo que você. Esperando que você me amasse também e me permitisse ficar ali adiando o perecer.

Com você, eu me senti assim. Pequena na imensidão do seu amor pelas coisas da vida, amando cada vez mais. Confundindo início e fim, sem fim.

January 25, 2011

Ponto final…

Filed under: Uncategorized — Dorothy Lee @ 10:41 pm

Sensata, ela sempre soube que era uma brincadeira. Brincou e se divertiu como nunca. Viu sua alegria contagiar-lhe com o faz de conta, vivendo intensamente todos os papéis a que lhe eram propostos. Serviu-se de altas doses de sorrisos e vontades pra que aquilo não precisasse terminar, mesmo sabendo que isso aconteceria hora ou outra. Ainda assim, triste foi o momento em que de tudo já se brincou, aquelas doses foram se tornando escassas e ela precisou se consolar com a ideia de que todas as coisas boas têm um fim.

Bebeu o que restou para tentar restaurar a sua felicidade até as pequeninas bruxas disfarçadas de fadas lhe oferecerem a saída para aquela situação. Ela não queria uma saída, queria apenas o que já tivera, uma continuação sem fim. Deram-lhe, então, a continuação. Deram-lhe a ilusão e ela a bebeu. Iludida, permaneceu no topo do castelo envolto por dragões que cuspiam fogo à espera do seu príncipe encantado deteriorado, fruto da esperança que lhe corroía o amor próprio.

Outonos se passaram e ela continuou a esperar, mas viu-se morrer aprisionada em seu desespero ao ver seu desejo realizado em miragens que jamais poderia alcançar e que, quando alcançava, via-se desfazer diante de seus olhos. Chorou pela sua esperança estilhaçada que lhe lacerava sem deixa-la partir, tornando impossível transformar aquela torre isolada em terreno seguro pra se pisar.

Viu-se envelhecer e ter suas vísceras comidas por vermes. Seus ossos esquecidos cobertos pelas folhas secas que, solitárias, deixavam-se carregar pelo vento até o abrigo do desamparo. Sua alma em sussurros suplicou, implorou, pelo seu príncipe. Ele nunca voltou e ela se deixou morrer, almejando renascer na flor que lhe fez bem querer.

Seguiu em frente e fingiu esquecer, mas lembrou-se sempre.

January 19, 2011

Dose diária

Filed under: Uncategorized — Dorothy Lee @ 1:44 am

A cortina se sacode levemente com as cócegas da brisa que passa por baixo dela, pelos lados, envolvendo-a, perpassando-a, anunciando uma manhã ensolarada. O canto dos pássaros a adentrar o cômodo, bem como os primeiros raios de sol a se mostrarem, insistentes, começa, aos poucos, a trazê-la de volta do seu esconderijo em direção à realidade.

O incômodo de abrir os olhos e deparar-se com toda a sua mobília reluzindo adiou a sensação de tarefa cumprida daquela orquestra matinal. Cobriu o rosto com o lençol e tentou fugir, mas o seu sono não voltaria, tampouco o seu sonho. Passou a encarar aquele tecido branco e, lentamente, permitiu a sua curiosidade frustrada procurar qualquer coisa diferente e intrigante em seu quarto.

Imersa na brancura de seus lençóis e travesseiros, observou nostalgicamente o contraste da sua pele com a sua roupa de cama e deixou-se invadir por uma onda de lembranças deleitosas, saudosistas, desejosas. Aquela porção de memórias de contos inacabados circundava os seus pensamentos como um móbile, despretensiosamente, e ela, sem notar, pôs-se a sonhar acordada.

Ansiou pela repetição das cenas já tão gastas em suas recordações e, mergulhando cada vez mais nessa sua fantasia, jurou sentir o peso do corpo daquele rapaz tão viajante a amassar-lhe os lençóis, sua pele um pouco mais morena a percorrer a dela em um abraço carente inacabável e a sua cabeça a aninhar-se no vão dos dois travesseiros, como em uma tentativa de aproximar o seu rosto do dela.

Seu olfato inundou-se do perfume daquela pele macia, enquanto o calor e a pulsação daquele corpo entrelaçado ao seu lhe escancaravam a veracidade daquele instante. Os lábios superficialmente úmidos do rapaz repousaram sobre os seus, demorados, e, então, sussurraram ao seu ouvido tudo o que ela queria ouvir. Ele a desejou um bom dia e contemplou-a, pedaço por pedaço, com um sorriso sincero no rosto sob a luz daquela manhã fresca. Aproximou-se, sentindo-a palpitar, enquanto os braços dela o envolviam e, ainda de olhos fechados, os seus lábios lhe revelavam em voz baixa “Você não é um sonho”.

Aquela projeção toda lhe pareceu tão real que seus olhos se encheram de saudades e ela sorriu comovida naquela inexistência. E, assim, tão instantaneamente quanto foi levada a sonhar acordada, levantou-se da cama banhada pelo seu amor platônico matinal cotidiano e, hesitante, despediu-se prometendo retornar. Deixou, mais uma vez, aquele abraço se desfazer do seu corpo como grãos de areia e aqueles pensamentos enternecidos se dispersarem como as claras nuvens daquela manhã.

December 29, 2010

Velas e desejos

Filed under: Uncategorized — Tags: , , , , — Dorothy Lee @ 4:58 pm

- O desejo! Faça um desejo! – Gritam os ânimos exaltados.

O bolo caseiro demasiadamente colorido por confetes me acenou um “Feliz aniversário”. Eu, debochando daquelas palavras, levantei a faca para esfaqueá-las, mas é claro que não me permitiram fazer tal coisa. Pelo menos não antes do coro e das palmas ensurdecedoras juntamente com a cera da vela chorosa em prantos já amolecida pelo calor do recinto.

Ligo o ar condicionado e me posiciono logo abaixo. Sinto aquela brisa gelada me batizar como se estivesse me abstendo de todo o mal que me rodeia. Em especial, do circo de aberrações que me roubou dos sonhos nessa manhã com urros de empolgação e desejos talvez não tão sinceros assim. Não digo que são mal intencionados. Digo, apenas, que meus “parabéns” dificilmente são repletos de felicitações tão sinceras quanto eu gostaria. Não queira me entender.

Deixo o álcool tomar lugar na ausência do ânimo de todos aqueles que me rodeiam e sorriem alegria forçada. Sinto a minha cabeça se desvencilhar do corpo e um leve indício de felicidade por estar ficando mais velha. Afinal, cheguei até aqui, não é mesmo?

Dançamos com as doses revirando nossas mentes e estômagos até que chega aquele momento que nem mesmo um bêbado consegue suportar. Nunca me disseram o que fazer enquanto estão todos a sua volta, observando atentamente a sua expressão de quase surpresa e cantando parabéns. Poderiam pular essa parte. Pensando bem, contanto que pulem a parte do “com quem será” já está ótimo.

Alguém traz um fósforo e acende aquelas velinhas que faíscam insanamente e queimam em uma velocidade quase incrível. Eu, posicionada em frente ao bolo, rodeada por pensamentos alheios, preparo-me para o tão esperado momento. As vozes cantam cada vez mais alto e o fim, mesmo que lentamente, aproxima-se. Estou pronta pra salvar a vela de sua tortura, quando meus amigos e familiares gritam em uníssono: – O desejo! Faça um desejo!

Eu, com a minha cara de descrente, fingindo estar vasculhando algo na minha mente, faço um desejo qualquer e apago a vela. Assassino o bolo e deixo que ele se despedace aos poucos, prato após prato.

Ao fim da cerimônia, minha cabeça parece explodir. Vou para o quarto e me deito, perdendo-me em meio a pensamentos enquanto sinto a brisa silenciosa banhar a minha alma com calmaria. Lembro-me do desejo. O tal desejo que tanto insistiram que eu fizesse. O desejo que eu desejava inconscientemente, mas do qual tomei conhecimento e realmente passei a desejar.

Meu desejo não se realizou. Malditos aniversários, maldita superstição, malditas pessoas. Devolvam-me o direito de não querer desejar antes de soprar o fogo, ou deixem o fogo queimar até que se apague sem que desejo algum precise sair do anonimato. Meu estômago revira, vou passar mal. Quero meu desejo. Vela? Alguém? Desejo? Não. Apenas o vaso sanitário e eu compartilhando nossa ruína, enquanto, do lado de fora, a grama toma um revitalizante banho de chuva.

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